Aborto Literário
Estações

 

“Como se todos os lugares ao meu lado fossem pequenos”, repetia de uma forma que, à olhos estranhos, soaria mais como um gemido frenético de alguém que nada mais tem a dizer. E provavelmente não tinha mesmo. Haviam sido anos de dedicação jogados fora, não sabia ao menos o motivo de tanto esforço. E agora, para onde ir? Estava sozinha, vivendo a plenitude da maioridade, sem um centavo no bolso e repleta de ordens a cumprir.  Seus sonhos foram maiores do que podia carregar, afinal, alguém que tem medo de café não pode almejar uma vida repleta de desafios. Uma Alice perdida em seu país das Maravilhas. O mundo lá fora parecia mais quente e emudecido do que o costume. Logo nesse país em que estações não são bem definidas as reviravoltas fazem questão de não esquentar apenas o clima. São temperaturas e sentimentos instáveis, um turbilhão de acidentes cotidianos marcando o diário de alguém que apenas desejaria um colo sóbrio e não fumante para descansar. E ser feliz. Não que sua felicidade dependa apenas do sexo oposto, na sua cabeça tem um ponto de mulher independente e rebelde, que esconde o feminismo pra não passar vergonha. Como odeia a vergonha! Quase na mesma proporção que tomar sustos, aliás, interpretava sustos como uma maneira de sentir vergonha interna. “Como se todos os lugares ao meu lado fossem pequenos”. O problema era ela e seu costume de acreditar no que lhe diziam. E ter fé. E saber encerrar com facilidade histórias, sem peso, sem pressa e sem culpa. Porque dói e passa. E tristeza, na sua insólita opinião, seria se amarrar a correntes falsas. Começou a acreditar na mudança. E gostar de flores, porque elas são incríveis enquanto vivem. E morrem. Morrem pra permitir que outras primaveras venham, promovendo a chegada de novas flores. Diariamente, quando abria sua janela, no que considerava ser manhã, mas já passava do meio-dia, repetia mentalmente “Não aprende a viver aquele que não faz questão de se entregar”. Certamente a maioria dos lugares ao seu lado fossem pequenos mesmo, sua força não cabia em um caixote previamente analisado e programado. Entregava-se.

 

Natália Assarito

 



1:47:34 AM |




Tati Bernardi

Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal. E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, eu disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Já tivemos nossos tempos de transar e passar nervoso e aquela coisa toda de quem ama prematuramente. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase dez anos. Somos pra sempre. Ele conta do filme que tá fazendo, eu do livro. Os mesmos há mil anos. Contar é sem pressa de acabar. Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. É um exibicionismo orgânico, como se meu silêncio pudesse continuar me vendendo como uma boa pessoa. São dez anos. É isso. Ele me viu de cabelo amarelo enrolado. Eu lembro dele gordinho e mais baixo. Eu já fui bem bonita numa festa só porque ele queria me fazer de namorada peituda pra provocar a ex. Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados "alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor" e mais uma vez rimos da piada que inventamos, do pai que chega pro filho e fala: sua mãe não é sua mãe, eu transei com outra". E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica.



1:23:45 AM |




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