Aborto Literário
Dezoito

                Muitos insistem em dizer que a ordem natural de tudo é a mudança. O que, na minha humilde opinião, se coloca apenas como mais um empecilho nessa história de viver. Porque mudanças me arrepiam do dedinho do pé ao fio de cabelo. Me parece um absurdo ter que perder toda segurança construída. Entretanto, no meu paradoxo cotidiano, talvez eu tenha claustrofobia da vida. E eu sei que por claustrofobia entende-se pavor de trancar-se em lugares apertados, pequenos e sem ventilação. Explico. Ao mesmo tempo em que não gosto de sair por aí berrando aos quatro ventos que tudo é lindo e que cada dia é novo, não me atrai ficar presa às limitações da minha mente. Porque por mais difícil que pareça ser, nem sempre algo seguro te faz bem. E com todas as forças que restam no meu útero, cansei dos mesmos cansaços de sempre. Porque fora do meu alcance existem os minutos correndo e eu não passando no vestibular, não aprendendo nada significativo, não saindo para lugares diferentes, não conhecendo pessoas novas. Não vou mais insistir em erros e nem dar abertura para que eles venham até mim. Existem sonhos, lugares, pessoas, sabores, cores, chuvas, paisagens, sensações que eu preciso entender. Então, a partir de hoje, sem mais correntes imaginárias e nem pesos sobre as costas. Por pouco tempo eu ainda posso dizer que sou jovem e isso deve ser apreciado. E se você quer saber, leitor, isso não é uma forma de superar nenhuma dor, mas de não se permitir ser superado por um mundo mutável.

 

Natália Assarito



7:50:24 PM |




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