Aborto Literário
Tati Bernardi

A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia. Somos pra sempre.



3:31:02 PM |




O som de janeiro

Acordo com latidos e um gosto salgado na minha boca. Não obstante, tudo é mais salgado nesse lugar. O sol do meio dia machucaria meus olhos, se a janela não estivesse devidamente fechada. Não dou a mínima para as gargalhadas vindas da piscina. Não me importo que a hora de se levantar passou há tempos. Os pássaros confirmam, desistindo de cantar.  Cubro meu rosto com o travesseiro. Puxo a coberta pelo meu corpo. Não me encontrem, eu imploro. Deus do sono, volta. Nenhum barulho de gente vindo da casa, todos estão na praia. E eu não quero acordar. Porque tudo aqui é mais salgado. E menos sério. E eu passei dezessete anos fingindo uma seriedade. Meu pai é sério, pessoas devem ser sérias. E eu só quero dormir. E não acordar nunca. Ou daqui trinta anos, quando minha vida estiver resolvida. Tudo bem que são minhas férias e que daqui uma semana vou ter ido embora. Mas ninguém entende que aqui tudo é mais salgado e desnecessário. Semana que vem será dezoito. Responsável por mim mesma. Eu não posso dormir? Dormir nos dezoito, dezenove, quarenta e oito. Porque tudo dá trabalho. Se não tiver jeito, eu podia levantar mais tarde. Ver a novela e o reality show, essas coisas de gente alienada. Porque todos os alienados são felizes, insisto. Assim como alguns amigos, que não param de fazer essa porcaria do meu celular tocar, querendo sair. Não que eu não queira sair, entretanto dormir é mais atraente. Não desligo porque são meus amigos, merecem resposta. Amigos porra nenhuma, o homem é o lobo do homem, lembra? Então posso desligar, assim que parar de comprimir o travesseiro contra o meu rosto. E aqui tudo é mais salgado. E mais seco. Um paradoxo, porque a roupa do varal nunca seca. “É a umidade do mar, criatura”. E eu sempre achei que o mar fosse alguma coisa independente. Porque ele nunca fica parado. Sem dúvidas o mar é maior de idade. O que também não faz diferença, afinal há cinco anos ele está igual. Ou quatro. Sei lá. E eu perdi o interesse, como sempre. Porque aqui tudo é mais salgado e talvez eu já esteja dormindo.

 

Natália Assarito



6:40:52 PM |




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