Aborto Literário
Quarenta e quatro.

 

                Escureceu. Tenho preguiça de levantar e acender a luz. Sinto que até respirar me cansa. Há quanto tempo eu não sei o que é viver? Não enxergo um palmo à minha frente e mesmo assim insisto na escuridão. Poderia deitar, se a cama não estivesse tão longe. Eu deveria fazer minhas malas, me animar com a possibilidade de um pouco de sol e sal. Amigos novos, risos novos. E tudo isso é tão hipócrita, assim como a felicidade. Não se pode ser feliz sem ser alienado. Quantas vezes ao certo eu pensei que precisava ser mais leve? E menos intensa? Quantas vezes deixei de perder alguém pelo meu peso e intensidade? Nunca. E falam que eu devo ser inteira. E me obrigam a existir. Lá fora faz calor e eu realmente amo noites estreladas, contudo eu fico trancada no escuro e nem me lembro mais do que eu tava pensando. E o universo coloca homens maravilhosos cantando Chico Buarque, mas nem isso surte efeito. Porque começos são só uma perspectiva. E eu sou um desastre. Depois ele vai embora e eu vou ficar trancada, derretendo no escuro. Pensando que eu deveria ter ignorado meu esôfago e ido te visitar no hospital. E sido menos fresca, e orgulhosa. E mandado os meus amigos embora, afinal quem fica aqui, agora, sem escrever, sem comer, sem rir, esperando você aparecer, sabendo que você é feliz sem mim, sou eu. E eu sei que nada disso vale à pena e que talvez você não mereça. A literatura prova isso. Minha professora de literatura confirma. Mas dentro do meu cérebro tem um oompa loompa nervoso que me diz que se é amor devia valer, porque não importa o mérito, mas o que eu sinto. E sinceramente, eu não ligo de não ter passado no vestibular, e nem de não saber o que vai ser do meu futuro, porque provavelmente eu nunca vou passar. Eu ligo de estar no escuro, nessa noite linda e você com alguma sonsa, que te agrada e nunca vai saber cuidar direito de você. Sabe, tem que ser dura às vezes. E não deixar sua teimosia prevalecer. Porque você muitas vezes se comporta como uma criança indisciplinada. E eu abri uma exceção pra você, mas não adiantou. Agora todos os dias, antes de dormir, eu tenho que lembrar que tem estrelinhas no teto do seu quarto e que te olhar de lá era a coisa mais linda do mundo. E que eu amo que você é desengonçado, e fala alto, e atende ao telefone engraçado, e tem as pernas mais abertas que o normal, e sempre me dizia “sempre um a mais”, e eu não fazia ideia do que aquilo significava, mas era bonito. E sabe, eu te beijei usando um crocs. E se isso não é amor nada mais é. Mas amor não vale de nada nessa vida. E hoje eu chorei a tarde inteira, pensando que você vai me esquecer. E é essa a ideia, não é? Não deu certo, eu terminei, vai cada um para o seu canto ser feliz. Eu conheço homens da minha vida em potencial, talentosos, revolucionários e você alguma feiosa sem graça, que faça tudo da maneira que você quer. E fica tudo bem para ambos. Sendo assim, eu deveria levantar, acender a lâmpada e ir pesquisar sobre algum assunto. Quem sabe amanhã arrumar uma passeata contra Belo Monte, ou a corrupção, ou o Kassab, ou o desmatamento, ou a hipocrisia que é o Natal. Só que eu não vou levantar e muito menos acender lâmpada nenhuma, prefiro ficar enterrada nessa lama toda que é a minha alma, esperando que você volte e me diga que tudo que nós fizemos foi errado, mas que esse planeta não pode ficar sem o nosso pecado.  Porque se o amor não vale nada nessa porcaria de vida, eu preciso ser salva antes de tentar mudar o mundo.

 

Natália Assarito 

 



1:29:33 AM |




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