Aborto Literário
Juro que não foi por querer

            Prendo a respiração como se fugir desse lugar fosse me livrar da dor de ser eu.  Eu espero, desesperadamente, pelo momento de sentir menos, da intensidade diminuir e da bússola voltar a apontar para o norte. Atualmente só as sombras se sobressaem e, caso nunca tenha percebido, sombras tendem a serem maiores do que o objeto propriamente dito.  Consequências assustadoras e maiores do que as ações. E nem por um instante meu corpo consegue ter alguma folga. Se fosse só o estômago latejando, mas é o olhar não retribuído, o esforço que não se reconhece e as tentativas falhas de mudar algo que já nasceu escrito e predestinado. Não tem como se transformar pedra em algodão doce, seria um trabalho de Sísifo. O que importa é que Sísifo só era infeliz nos poucos rompantes de lucidez que tinha, quando a pedra rolava morro abaixo. O problema é quando esses espasmos se tornam constantes.  “Não deixe a guerra começar”. Tão difícil não permitir uma batalha externa quando internamente tudo desmoronou. Não lembro mais se o ar já voltou, na minha rotina asmática ar sempre faltou, então não difere tanto. Mas eu me pergunto o que eu faço aqui, parada, despida de todas as minhas armas esperando o primeiro a me atingir. Quase um marinheiro rodeado por três sereias, cada qual com o seu irresistível poder de destruição.  Sucumbir no paraíso, isso não existe. É mais uma daquelas histórias contadas no primário, acreditar nisso seria o mesmo que confiar que Cabral se perdeu durante sua expedição, vindo parar nessa longínqua terra habitada por gente pelada. Falta só mais uma faixa pro cd acabar, se o Renato me abandonar, todo o resto dessas linhas acabam também. Eu podia escrever palavras amáveis, denunciar a podridão social ou, simplesmente me queixar de como a vida passa sem deixar nenhuma dica do que está por vir. Eu podia exprimir as mesmas indignações de sempre, esperando que algum indivíduo bom lesse e ficasse com uma pontada do meu tormento. Se fosse só a dor de estômago latejante e a incapacidade de criar algo novo, eu podia, contudo nada disso é mortal. A indiferença domina. Ninguém nessa droga é feliz e ninguém percebe que é infeliz.  Eu não quero ver a desgraça alheia para diminuir a minha, e, muito menos, gosto de ser esquisita. Sou do tempo em que homens tinham palavra e não se jogavam em um rio de impulsividade, achando que sabem nadar em águas desconhecidas. O meu tempo não existe. Se pudesse afogava minha mágoa, por tudo que não se concretizou e na minha imaginação foi lindo. Certos sonhos nunca acontecerão, não me venha com essa filosofia de Eliana. E a quantidade imensa de comprimidos ingeridos, visando um dia mais ensolarado, acabaram com o que sobrou do esôfago. Eu aperto meus olhos esperando por uma resposta, tentando sufocar o que há tempos me domina. Tento aprender a lidar com o meu eu, ou pelo menos, exterminá-lo, antes de ser vencida pela minha força maior.

 

Natália Assarito 



10:39:23 PM |




Cartas além do muro

Caio Fernando Abreu

 

Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais no de dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes e eles dizem que se eu mostrar como realmente sou você vai ficar apavorado e nunca mais vai aparecer nem telefonar – eu não agüento mais não me mostrar como sou. Hoje de manhã eu acordei bem cedo, e depois de conversar com eles consegui permissão para caminhar sozinho no jardim, eu disfarcei muito conversando com eles porque queria muito caminhar sozinho no jardim. Àquela hora ainda não estava chovendo, ou estava, não me lembro, ou havia chovido ontem à noite, não, acho que não estava chovendo não, porque eu lembro que as folhas estavam limpas e molhadas e a aterra tinha um cheiro de terra molhada: comecei a lembrar, lembrar, lembrar e o meu pensamento parecia um parafuso sem fim, afundando na memória, eu não suportava mais lembrar de tudo o que se perdeu, tudo o que perdi, não fui e não fiz, mas não conseguia parar. Então comecei a gritar no meio do jardim molhado com as duas mãos segurando a minha cabeça para que não estourasse. Aí eles vieram e disseram que não tinha jeito e que estavam arrependidos por terem me deixado sair sozinho e que aquela era a última vez e que eu disfarçava muito bem mas não conseguiria mais enganá-los. Eu disse que não tinha culpa do meu pensamento disparar daquele jeito, mas acho que eles não acreditaram, eles não acreditaram que eu não consigo controlar pensamento. Então me deram uma daquelas injeções e eu afundei num sono pesado e sem saída como este espaço dentro desses quatro muros brancos. Foi depois que acordei, não sei se hoje ou amanhã ou ontem, eu te escrevo dizendo hoje só para tornar as coisas mais fáceis, foi depois de acordar que perguntei se você não tinha vindo nem telefonado, e eles disseram que você não viera nem telefonara. É provável que estivessem mentindo, eles dizem que eu preciso aceitar mais a realidade das coisas, a dureza das coisas, e às vezes penso que tornam de propósito as coisas mais duras do que realmente são, só pra ver se eu reajo, se eu enfrento. Mas não reajo nem enfrento. A cada dia viver me esmaga com mais força. Não sei se eles escondem de mim a sua visita, se não me chamam quando você telefona, se dizem que já fui embora, que já estou curado, não sei se você não vem mesmo e não telefona mais, não sei nada de ninguém que viva atrás daqueles muros brancos, você era a única pessoa lá de fora que entrava aqui de vez em quando. É verdade que eles todos moram lá fora, mas é diferente, eles vivem tanto aqui dentro que não consigo acreditar que sejam iguais os lá de fora, como você. Você, sim, era completamente lá de fora. Digo era porque faz muito tempo que você não vem porque guardei no meio das minhas roupas um pedaço daquela maçã que você trouxe da última vez, e aquele pedaço escureceu, ficou com cheiro ruim, encheu de bichos, até que eles me obrigaram a jogar fora. Acho que os pedaços de maçã só se enchem de bichos depois de muito tempo, não sei. Parei um pouco de escrever, roí as unhas, preciso roer as unhas porque eles não me deixam fumar, reli o começo da carta, mas não consegui entender direito o que eu pretendia dizer, sei que pretendia dizer uma coisa muito especial a você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver ou telefonar e, se fosse preciso, trazer a polícia aqui para obrigá-los a deixarem você me ver. Eu sei que você quer me ver. Eu sei que você fica os dias inteiros caminhando atrás daqueles muros brancos esperando eu aparecer. Eles não deixam, acho que você sabe que eles não deixam. Não vão deixar nem esta carta chegar às suas mãos, ou vão escrever outra dizendo que eu não gosto de você, que eu não preciso de você. Mas é mentira, você tem que saber que é mentira, acho que era isso que eu queria dizer preciso escrever depressa antes que eu me esqueça do que eu queria dizer era isso eu preciso muito muito de você eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro ou do outro lado.



5:50:43 PM |




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