Aborto Literário
Nem todos os aracnídeos são diretos

 

                        Aranhas. Os seres mais irônicos do universo. Nunca existiu uma concentração tão grande desses indivíduos como agora. E elas convergem para o escuro, como se a sua existência não fosse por si só um absurdo. Suas oito patas que não tateiam, não correm. Quanto mais aranhas, mais patas e mais patas e mais aranhas. Continuando a jornada incessante de se arrastar por fendas e lugares inesperados, assustando os jovens descuidados, buscando algo que ninguém nunca viu. Velhos são imunes a aranhas, ou talvez tenham se acostumado a elas. A mitologia grega diz que são seres castigados por Atena, a qual competiu com uma mulher fiandeira. Disparato, mortal ganhar de deusa, nunca um subordinado pode ser melhor do que o seu superior, por isso a pobre foi castigada. Como penitência foi transformada em aracnídeo, sendo obrigada a fazer teias por toda eternidade. Mas se ela o fazia com excelência, seria essa uma pena? Apenas se ela não sentisse prazer em construir teias. Tenho certeza do contrário, gostava de fiar. Porque quando se realiza bem um trabalho, é porque ele deixou a fase do castigo e adentrou o mundo da diversão. E ser aranha é muito cômodo. Construir a teia, esperar a presa chegar. A idiota se prende sozinha, basta se saciar. Aranhas apenas esperam o erro alheio, não precisam se sujar. E, em alguns casos, quando ameaçadas soltam seu veneno, que pode ser mortal. Aranhas são o oposto de Sísifo, vivem gozando a alegria de ter oito patas para auxiliar no seu caminho. E ao contrário do que pensam, não são perigosas. Formigas são perigosas, roubam seu alimento, te picam, contaminam sua comida. Aranhas não se importam com você, são plenamente capazes de dividir o mesmo espaço sem apresentarem perigo. O único problema na convivência seria falhar, em algum momento. Ficaria preso em uma rede impossível de escapar. E nunca existiram tantas aranhas, os seres mais irônicos e maravilhosos do universo. Vivem no mato, deserto, casas, papéis, escritórios, trânsito, banheiros, na alma. Queria ser aranha. Queria não precisar de nada além das minhas oito patas.

 

Natália Assarito

 



1:09:55 AM |




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