Aborto Literário
Corujas

Suspeito que tudo que foge do banal sempre me encantou. Uma pena confundirem com anormalidade tudo o que não é corriqueiro. Apesar de que eu faço questão de ser anormal, se normalidade for o que observo nas ruas diariamente. Sei que tudo que passa despercebido, pra maioria, é material extremamente especial pra mim. E certas vezes, constatar isso me vira de cabeça pra baixo. Porque eu conheço quem tem arte na alma. Passei toda a minha vida buscando isso e, pela primeira vez, não invejo mais quem é assim. É claro que me sinto do tamanho de uma formiguinha, mas não importa,  trocaria todas as tardes da semana, por uma ouvindo qualquer papo alheio. E fechar os olhos, carregados com o timbre de voz mais perfeito que eu já ouvi. Indivíduos artísticos devem ser assim, cada pedacinho do corpo tem mágica. Tem horas que eu queria desvendar esse mistério obscuro e gritar pra todo mundo que toda menina deveria ser uma praga de teimosa, ou destruir os seus acessórios, deixando-os mais bonitos depois de acabados, ou levar uma garrafinha de água na bolsa. E todas nós deveríamos analisar a simetria das coisas, antes de comprá-las. Porque, porra, é um saco ser igual as demais! Todas nós temos problemas com os namorados, não namorados, pessoas que queríamos que fossem nossos namorados, TPM, cabelos imbecis e todas as outras et ceteras femininas . Mas eu desejaria do fundo do coração que olhássemos pro mundo e disséssemos “eu gosto desse anel porque ele fica retinho”. É tão simples e tão absurdamente livre. Ninguém entende que quando não pensa, não deixa de fazer nada além do esperado, deixa de existir também. Um dia vou entender, porque o planeta é tão quadradinho. Um dia, talvez, entendam porque eu faço questão de viver em uma elipse. E eu já nem me importo mais. Eu só quero sentar em um banco sujo na praça e ouvir alguém falar com brilho no olhar. Eu só quero o absurdo.

 

Natália Assarito



8:08:53 PM |




A Menina e o Pássaro

Tem horas que a música, os livros, os amigos e a comida cansam. Em algumas situações sinto um desprezo em existir.  E o dia é pesado demais. Então, procurar algo que fuja do meu destino se torna uma obrigação. E você estava majestoso, com as asas brilhando, livre para voar nessa manhã cinzenta de segunda feira. Provavelmente cantando sobre o amor passarinho não correspondido, esperando encontrar alguém que te acompanhe e torne menos solitária a sua jornada. E eu estava te olhando, atrás do vidro. Pensando se algum dia serei livre pra sonhar e que há muito tempo o homem se tornou caçador dele próprio. Indagando sobre qual é a vantagem de se dizer rei do universo e ter os pés amarrados no chão.

 

Natália Assarito



10:28:51 PM |




Para uma menina com uma flor.

Vinícius de Moraes

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, 
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte 
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, 
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. 

    E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; 
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha 
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

 



11:50:25 PM |




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