Aborto Literário
Estações

 

“Como se todos os lugares ao meu lado fossem pequenos”, repetia de uma forma que, à olhos estranhos, soaria mais como um gemido frenético de alguém que nada mais tem a dizer. E provavelmente não tinha mesmo. Haviam sido anos de dedicação jogados fora, não sabia ao menos o motivo de tanto esforço. E agora, para onde ir? Estava sozinha, vivendo a plenitude da maioridade, sem um centavo no bolso e repleta de ordens a cumprir.  Seus sonhos foram maiores do que podia carregar, afinal, alguém que tem medo de café não pode almejar uma vida repleta de desafios. Uma Alice perdida em seu país das Maravilhas. O mundo lá fora parecia mais quente e emudecido do que o costume. Logo nesse país em que estações não são bem definidas as reviravoltas fazem questão de não esquentar apenas o clima. São temperaturas e sentimentos instáveis, um turbilhão de acidentes cotidianos marcando o diário de alguém que apenas desejaria um colo sóbrio e não fumante para descansar. E ser feliz. Não que sua felicidade dependa apenas do sexo oposto, na sua cabeça tem um ponto de mulher independente e rebelde, que esconde o feminismo pra não passar vergonha. Como odeia a vergonha! Quase na mesma proporção que tomar sustos, aliás, interpretava sustos como uma maneira de sentir vergonha interna. “Como se todos os lugares ao meu lado fossem pequenos”. O problema era ela e seu costume de acreditar no que lhe diziam. E ter fé. E saber encerrar com facilidade histórias, sem peso, sem pressa e sem culpa. Porque dói e passa. E tristeza, na sua insólita opinião, seria se amarrar a correntes falsas. Começou a acreditar na mudança. E gostar de flores, porque elas são incríveis enquanto vivem. E morrem. Morrem pra permitir que outras primaveras venham, promovendo a chegada de novas flores. Diariamente, quando abria sua janela, no que considerava ser manhã, mas já passava do meio-dia, repetia mentalmente “Não aprende a viver aquele que não faz questão de se entregar”. Certamente a maioria dos lugares ao seu lado fossem pequenos mesmo, sua força não cabia em um caixote previamente analisado e programado. Entregava-se.

 

Natália Assarito

 



1:47:34 AM |




Tati Bernardi

Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal. E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, eu disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Já tivemos nossos tempos de transar e passar nervoso e aquela coisa toda de quem ama prematuramente. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase dez anos. Somos pra sempre. Ele conta do filme que tá fazendo, eu do livro. Os mesmos há mil anos. Contar é sem pressa de acabar. Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. É um exibicionismo orgânico, como se meu silêncio pudesse continuar me vendendo como uma boa pessoa. São dez anos. É isso. Ele me viu de cabelo amarelo enrolado. Eu lembro dele gordinho e mais baixo. Eu já fui bem bonita numa festa só porque ele queria me fazer de namorada peituda pra provocar a ex. Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados "alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor" e mais uma vez rimos da piada que inventamos, do pai que chega pro filho e fala: sua mãe não é sua mãe, eu transei com outra". E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica.



1:23:45 AM |




Dezoito

                Muitos insistem em dizer que a ordem natural de tudo é a mudança. O que, na minha humilde opinião, se coloca apenas como mais um empecilho nessa história de viver. Porque mudanças me arrepiam do dedinho do pé ao fio de cabelo. Me parece um absurdo ter que perder toda segurança construída. Entretanto, no meu paradoxo cotidiano, talvez eu tenha claustrofobia da vida. E eu sei que por claustrofobia entende-se pavor de trancar-se em lugares apertados, pequenos e sem ventilação. Explico. Ao mesmo tempo em que não gosto de sair por aí berrando aos quatro ventos que tudo é lindo e que cada dia é novo, não me atrai ficar presa às limitações da minha mente. Porque por mais difícil que pareça ser, nem sempre algo seguro te faz bem. E com todas as forças que restam no meu útero, cansei dos mesmos cansaços de sempre. Porque fora do meu alcance existem os minutos correndo e eu não passando no vestibular, não aprendendo nada significativo, não saindo para lugares diferentes, não conhecendo pessoas novas. Não vou mais insistir em erros e nem dar abertura para que eles venham até mim. Existem sonhos, lugares, pessoas, sabores, cores, chuvas, paisagens, sensações que eu preciso entender. Então, a partir de hoje, sem mais correntes imaginárias e nem pesos sobre as costas. Por pouco tempo eu ainda posso dizer que sou jovem e isso deve ser apreciado. E se você quer saber, leitor, isso não é uma forma de superar nenhuma dor, mas de não se permitir ser superado por um mundo mutável.

 

Natália Assarito



7:50:24 PM |




Tati Bernardi

A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ela era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia. Somos pra sempre.



3:31:02 PM |




O som de janeiro

Acordo com latidos e um gosto salgado na minha boca. Não obstante, tudo é mais salgado nesse lugar. O sol do meio dia machucaria meus olhos, se a janela não estivesse devidamente fechada. Não dou a mínima para as gargalhadas vindas da piscina. Não me importo que a hora de se levantar passou há tempos. Os pássaros confirmam, desistindo de cantar.  Cubro meu rosto com o travesseiro. Puxo a coberta pelo meu corpo. Não me encontrem, eu imploro. Deus do sono, volta. Nenhum barulho de gente vindo da casa, todos estão na praia. E eu não quero acordar. Porque tudo aqui é mais salgado. E menos sério. E eu passei dezessete anos fingindo uma seriedade. Meu pai é sério, pessoas devem ser sérias. E eu só quero dormir. E não acordar nunca. Ou daqui trinta anos, quando minha vida estiver resolvida. Tudo bem que são minhas férias e que daqui uma semana vou ter ido embora. Mas ninguém entende que aqui tudo é mais salgado e desnecessário. Semana que vem será dezoito. Responsável por mim mesma. Eu não posso dormir? Dormir nos dezoito, dezenove, quarenta e oito. Porque tudo dá trabalho. Se não tiver jeito, eu podia levantar mais tarde. Ver a novela e o reality show, essas coisas de gente alienada. Porque todos os alienados são felizes, insisto. Assim como alguns amigos, que não param de fazer essa porcaria do meu celular tocar, querendo sair. Não que eu não queira sair, entretanto dormir é mais atraente. Não desligo porque são meus amigos, merecem resposta. Amigos porra nenhuma, o homem é o lobo do homem, lembra? Então posso desligar, assim que parar de comprimir o travesseiro contra o meu rosto. E aqui tudo é mais salgado. E mais seco. Um paradoxo, porque a roupa do varal nunca seca. “É a umidade do mar, criatura”. E eu sempre achei que o mar fosse alguma coisa independente. Porque ele nunca fica parado. Sem dúvidas o mar é maior de idade. O que também não faz diferença, afinal há cinco anos ele está igual. Ou quatro. Sei lá. E eu perdi o interesse, como sempre. Porque aqui tudo é mais salgado e talvez eu já esteja dormindo.

 

Natália Assarito



6:40:52 PM |




Quarenta e quatro.

 

                Escureceu. Tenho preguiça de levantar e acender a luz. Sinto que até respirar me cansa. Há quanto tempo eu não sei o que é viver? Não enxergo um palmo à minha frente e mesmo assim insisto na escuridão. Poderia deitar, se a cama não estivesse tão longe. Eu deveria fazer minhas malas, me animar com a possibilidade de um pouco de sol e sal. Amigos novos, risos novos. E tudo isso é tão hipócrita, assim como a felicidade. Não se pode ser feliz sem ser alienado. Quantas vezes ao certo eu pensei que precisava ser mais leve? E menos intensa? Quantas vezes deixei de perder alguém pelo meu peso e intensidade? Nunca. E falam que eu devo ser inteira. E me obrigam a existir. Lá fora faz calor e eu realmente amo noites estreladas, contudo eu fico trancada no escuro e nem me lembro mais do que eu tava pensando. E o universo coloca homens maravilhosos cantando Chico Buarque, mas nem isso surte efeito. Porque começos são só uma perspectiva. E eu sou um desastre. Depois ele vai embora e eu vou ficar trancada, derretendo no escuro. Pensando que eu deveria ter ignorado meu esôfago e ido te visitar no hospital. E sido menos fresca, e orgulhosa. E mandado os meus amigos embora, afinal quem fica aqui, agora, sem escrever, sem comer, sem rir, esperando você aparecer, sabendo que você é feliz sem mim, sou eu. E eu sei que nada disso vale à pena e que talvez você não mereça. A literatura prova isso. Minha professora de literatura confirma. Mas dentro do meu cérebro tem um oompa loompa nervoso que me diz que se é amor devia valer, porque não importa o mérito, mas o que eu sinto. E sinceramente, eu não ligo de não ter passado no vestibular, e nem de não saber o que vai ser do meu futuro, porque provavelmente eu nunca vou passar. Eu ligo de estar no escuro, nessa noite linda e você com alguma sonsa, que te agrada e nunca vai saber cuidar direito de você. Sabe, tem que ser dura às vezes. E não deixar sua teimosia prevalecer. Porque você muitas vezes se comporta como uma criança indisciplinada. E eu abri uma exceção pra você, mas não adiantou. Agora todos os dias, antes de dormir, eu tenho que lembrar que tem estrelinhas no teto do seu quarto e que te olhar de lá era a coisa mais linda do mundo. E que eu amo que você é desengonçado, e fala alto, e atende ao telefone engraçado, e tem as pernas mais abertas que o normal, e sempre me dizia “sempre um a mais”, e eu não fazia ideia do que aquilo significava, mas era bonito. E sabe, eu te beijei usando um crocs. E se isso não é amor nada mais é. Mas amor não vale de nada nessa vida. E hoje eu chorei a tarde inteira, pensando que você vai me esquecer. E é essa a ideia, não é? Não deu certo, eu terminei, vai cada um para o seu canto ser feliz. Eu conheço homens da minha vida em potencial, talentosos, revolucionários e você alguma feiosa sem graça, que faça tudo da maneira que você quer. E fica tudo bem para ambos. Sendo assim, eu deveria levantar, acender a lâmpada e ir pesquisar sobre algum assunto. Quem sabe amanhã arrumar uma passeata contra Belo Monte, ou a corrupção, ou o Kassab, ou o desmatamento, ou a hipocrisia que é o Natal. Só que eu não vou levantar e muito menos acender lâmpada nenhuma, prefiro ficar enterrada nessa lama toda que é a minha alma, esperando que você volte e me diga que tudo que nós fizemos foi errado, mas que esse planeta não pode ficar sem o nosso pecado.  Porque se o amor não vale nada nessa porcaria de vida, eu preciso ser salva antes de tentar mudar o mundo.

 

Natália Assarito 

 



1:29:33 AM |




Caminhão

Tati Bernardi

 

O mundo vê um passinho pra trás. Mas em algum lugar do cosmos, ouve-se um caminhão da Granero frear. Um barulho imenso, desengonçado, batem atrás, cercas arrancadas, quase cai no fim do mundo, móveis baratos despedaçados pela cidade. O tempo todo me dizendo menos. Menos. Pra aguentar, por favor. Pra ter alguma coisa, qualquer coisa.

Duas semanas. Um mês. Menos. Menos dor, menos amor, menos ódio, menos vontade de fazer cortar. De sangrar pra fora pra poder ser menos. Por favor. Sorria como a moça da mesa ao lado, coloque um montinho de cabelo atrás da orelha, alongue um pouco o pescoço. Seu olhar está perdido porque pra poder estar naquela mesa ela foi matando pouco a pouco sua ferocidade. Mas ela toma chá e sorri. E você?

Você mais uma vez vai voltar cheia de razão e sozinha. Cheia de tudo que não esquenta o pé. Cheia das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando "ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance".

Você mais uma vez vai voltar cheia de razão e sozinha. Cheia de tudo que não esquenta o pé. Cheia das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando "ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance".

O tempo todo maquiando o caminhão, para que pareça uma minivan ou qualquer coisa tão desengonçada e apressada quanto, mas mais cabível. Que possa estar na estrada que todo mundo está parado, o eterno trânsito de chegar nesse lugar que a gente acha que é o único porque estão todos lá.

E no meu ouvido, o tempo todo soprando. Esqueça isso, você não cabe, você não combina, a estrada não é feita pra você, você só pesa nela, só atrapalha, só é feio e odiado. É isso, não se desvira caminhão. Se é e pronto. Solitário demais, terrível demais. Mas pro outro lado, está vazio. Tem espaço pra você. A dor de virar um carro família, um carro esporte, um carro compacto. Não aguento mais, não aguento mais querer me refilar, não aguento mais querer mudar a química do meu cérebro, não aguento mais pedir perdão. Não, caminhão, tantos anos tentando, não, você não pode, não consegue, é assim. Do outro lado, uma estrada imensa. O caminho claro, bonito e sem buracos, dos que desistem.

Isso, mais uma vez, mas dessa sem voltar. Você não sabe amar, caminhão. Não pode. Não é feito pra você. Dê meia volta, por favor, sem atropelar, sem matar, sem cair, sem levar ninguém. Na tristeza dura de quem tem tanto tamanho mas não tem força pra suportar. De quem tem tanto tamanho e não consegue por medo em ninguém. De quem precisa tanto de abraço mas é grande demais pra sentir os braços em volta. De quem poderia estraçalhar os carros família mas só sente o peso insuportável de ser minúsculo perto deles.

Claustrofobia, pânico, insuportável. E então, o som, mais uma vez, puxar o freio, largar a mão, dar meia volta. Tchau, meu amor. Olhe quantos carros pequenos. Não queira mais saber dessa grossura destrambelhada que só leva mudanças porque ir embora parece um lugar com mais ar. Se você não pode ver meu coração de carruagem, ou sei lá que carro poético poderíamos imaginar agora, eu também não quero mais ser nenhuma outra coisa.

De todo mundo que eu vi de costas, partindo, foi a vez que mais doeu. Talvez porque um pouco antes, quando eu ainda amava sua nuca e sua eterna mochila nas costas como amei poucas coisas na vida, você se virou, apontou o dedo pra mim, e gritou, com pouco ou nenhum carinho: você é um caminhão! Caminhão! Caminhão!

E eu sei, e eu tentei mais do que nunca, e eu quis mais do que nunca. E eu achei que os caminhões também pudessem ter donos e direções e medalinhas. Você também me usou pra levar sua mudança e voltar vazia das suas coisas é a coisa mais triste que já aconteceu na minha vida.

 



2:45:39 AM |




Nada vai mudar

Detonautas

 

Olha eu to sem sono já faz mais de um mês 
Eu fico aqui passando em claro só pensando em você 
Aqui tá frio, tá sinistro eu não conheço ninguém 
A vida é mesmo complicada demais 
Lembro das palavras que você me falou 
E dos conflitos que causei por ser do jeito que eu sou 
A gente as vezes precisava ser um pouco melhor 
Eu deixo o tempo resolver desta vez 
Vou te encontrar ou te esquecer 
Mudo meus planos pra ter você 
E nada vai mudar enquanto a gente resistir em ver 
Que as coisas são sempre assim entre o que eu quero e o que você crê 
E nada vai mudar enquanto a gente resistir em ver 





8:38:54 PM |




Juro que não foi por querer

            Prendo a respiração como se fugir desse lugar fosse me livrar da dor de ser eu.  Eu espero, desesperadamente, pelo momento de sentir menos, da intensidade diminuir e da bússola voltar a apontar para o norte. Atualmente só as sombras se sobressaem e, caso nunca tenha percebido, sombras tendem a serem maiores do que o objeto propriamente dito.  Consequências assustadoras e maiores do que as ações. E nem por um instante meu corpo consegue ter alguma folga. Se fosse só o estômago latejando, mas é o olhar não retribuído, o esforço que não se reconhece e as tentativas falhas de mudar algo que já nasceu escrito e predestinado. Não tem como se transformar pedra em algodão doce, seria um trabalho de Sísifo. O que importa é que Sísifo só era infeliz nos poucos rompantes de lucidez que tinha, quando a pedra rolava morro abaixo. O problema é quando esses espasmos se tornam constantes.  “Não deixe a guerra começar”. Tão difícil não permitir uma batalha externa quando internamente tudo desmoronou. Não lembro mais se o ar já voltou, na minha rotina asmática ar sempre faltou, então não difere tanto. Mas eu me pergunto o que eu faço aqui, parada, despida de todas as minhas armas esperando o primeiro a me atingir. Quase um marinheiro rodeado por três sereias, cada qual com o seu irresistível poder de destruição.  Sucumbir no paraíso, isso não existe. É mais uma daquelas histórias contadas no primário, acreditar nisso seria o mesmo que confiar que Cabral se perdeu durante sua expedição, vindo parar nessa longínqua terra habitada por gente pelada. Falta só mais uma faixa pro cd acabar, se o Renato me abandonar, todo o resto dessas linhas acabam também. Eu podia escrever palavras amáveis, denunciar a podridão social ou, simplesmente me queixar de como a vida passa sem deixar nenhuma dica do que está por vir. Eu podia exprimir as mesmas indignações de sempre, esperando que algum indivíduo bom lesse e ficasse com uma pontada do meu tormento. Se fosse só a dor de estômago latejante e a incapacidade de criar algo novo, eu podia, contudo nada disso é mortal. A indiferença domina. Ninguém nessa droga é feliz e ninguém percebe que é infeliz.  Eu não quero ver a desgraça alheia para diminuir a minha, e, muito menos, gosto de ser esquisita. Sou do tempo em que homens tinham palavra e não se jogavam em um rio de impulsividade, achando que sabem nadar em águas desconhecidas. O meu tempo não existe. Se pudesse afogava minha mágoa, por tudo que não se concretizou e na minha imaginação foi lindo. Certos sonhos nunca acontecerão, não me venha com essa filosofia de Eliana. E a quantidade imensa de comprimidos ingeridos, visando um dia mais ensolarado, acabaram com o que sobrou do esôfago. Eu aperto meus olhos esperando por uma resposta, tentando sufocar o que há tempos me domina. Tento aprender a lidar com o meu eu, ou pelo menos, exterminá-lo, antes de ser vencida pela minha força maior.

 

Natália Assarito 



10:39:23 PM |




Cartas além do muro

Caio Fernando Abreu

 

Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais no de dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes e eles dizem que se eu mostrar como realmente sou você vai ficar apavorado e nunca mais vai aparecer nem telefonar – eu não agüento mais não me mostrar como sou. Hoje de manhã eu acordei bem cedo, e depois de conversar com eles consegui permissão para caminhar sozinho no jardim, eu disfarcei muito conversando com eles porque queria muito caminhar sozinho no jardim. Àquela hora ainda não estava chovendo, ou estava, não me lembro, ou havia chovido ontem à noite, não, acho que não estava chovendo não, porque eu lembro que as folhas estavam limpas e molhadas e a aterra tinha um cheiro de terra molhada: comecei a lembrar, lembrar, lembrar e o meu pensamento parecia um parafuso sem fim, afundando na memória, eu não suportava mais lembrar de tudo o que se perdeu, tudo o que perdi, não fui e não fiz, mas não conseguia parar. Então comecei a gritar no meio do jardim molhado com as duas mãos segurando a minha cabeça para que não estourasse. Aí eles vieram e disseram que não tinha jeito e que estavam arrependidos por terem me deixado sair sozinho e que aquela era a última vez e que eu disfarçava muito bem mas não conseguiria mais enganá-los. Eu disse que não tinha culpa do meu pensamento disparar daquele jeito, mas acho que eles não acreditaram, eles não acreditaram que eu não consigo controlar pensamento. Então me deram uma daquelas injeções e eu afundei num sono pesado e sem saída como este espaço dentro desses quatro muros brancos. Foi depois que acordei, não sei se hoje ou amanhã ou ontem, eu te escrevo dizendo hoje só para tornar as coisas mais fáceis, foi depois de acordar que perguntei se você não tinha vindo nem telefonado, e eles disseram que você não viera nem telefonara. É provável que estivessem mentindo, eles dizem que eu preciso aceitar mais a realidade das coisas, a dureza das coisas, e às vezes penso que tornam de propósito as coisas mais duras do que realmente são, só pra ver se eu reajo, se eu enfrento. Mas não reajo nem enfrento. A cada dia viver me esmaga com mais força. Não sei se eles escondem de mim a sua visita, se não me chamam quando você telefona, se dizem que já fui embora, que já estou curado, não sei se você não vem mesmo e não telefona mais, não sei nada de ninguém que viva atrás daqueles muros brancos, você era a única pessoa lá de fora que entrava aqui de vez em quando. É verdade que eles todos moram lá fora, mas é diferente, eles vivem tanto aqui dentro que não consigo acreditar que sejam iguais os lá de fora, como você. Você, sim, era completamente lá de fora. Digo era porque faz muito tempo que você não vem porque guardei no meio das minhas roupas um pedaço daquela maçã que você trouxe da última vez, e aquele pedaço escureceu, ficou com cheiro ruim, encheu de bichos, até que eles me obrigaram a jogar fora. Acho que os pedaços de maçã só se enchem de bichos depois de muito tempo, não sei. Parei um pouco de escrever, roí as unhas, preciso roer as unhas porque eles não me deixam fumar, reli o começo da carta, mas não consegui entender direito o que eu pretendia dizer, sei que pretendia dizer uma coisa muito especial a você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver ou telefonar e, se fosse preciso, trazer a polícia aqui para obrigá-los a deixarem você me ver. Eu sei que você quer me ver. Eu sei que você fica os dias inteiros caminhando atrás daqueles muros brancos esperando eu aparecer. Eles não deixam, acho que você sabe que eles não deixam. Não vão deixar nem esta carta chegar às suas mãos, ou vão escrever outra dizendo que eu não gosto de você, que eu não preciso de você. Mas é mentira, você tem que saber que é mentira, acho que era isso que eu queria dizer preciso escrever depressa antes que eu me esqueça do que eu queria dizer era isso eu preciso muito muito de você eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro ou do outro lado.



5:50:43 PM |




O espancador

A vida é uma surra moral, verbal e física. O que difere é a localização dos hematomas. Podem estar nos braços, pernas, costelas, olhos, boca ou alma. De qualquer forma, o maior machucado, irreversível, aparece quando o criador das feridas representa a pessoa que mais deveria zelar para te ver inteiro.

 

Natália Assarito



10:49:26 PM |




Nem todos os aracnídeos são diretos

 

                        Aranhas. Os seres mais irônicos do universo. Nunca existiu uma concentração tão grande desses indivíduos como agora. E elas convergem para o escuro, como se a sua existência não fosse por si só um absurdo. Suas oito patas que não tateiam, não correm. Quanto mais aranhas, mais patas e mais patas e mais aranhas. Continuando a jornada incessante de se arrastar por fendas e lugares inesperados, assustando os jovens descuidados, buscando algo que ninguém nunca viu. Velhos são imunes a aranhas, ou talvez tenham se acostumado a elas. A mitologia grega diz que são seres castigados por Atena, a qual competiu com uma mulher fiandeira. Disparato, mortal ganhar de deusa, nunca um subordinado pode ser melhor do que o seu superior, por isso a pobre foi castigada. Como penitência foi transformada em aracnídeo, sendo obrigada a fazer teias por toda eternidade. Mas se ela o fazia com excelência, seria essa uma pena? Apenas se ela não sentisse prazer em construir teias. Tenho certeza do contrário, gostava de fiar. Porque quando se realiza bem um trabalho, é porque ele deixou a fase do castigo e adentrou o mundo da diversão. E ser aranha é muito cômodo. Construir a teia, esperar a presa chegar. A idiota se prende sozinha, basta se saciar. Aranhas apenas esperam o erro alheio, não precisam se sujar. E, em alguns casos, quando ameaçadas soltam seu veneno, que pode ser mortal. Aranhas são o oposto de Sísifo, vivem gozando a alegria de ter oito patas para auxiliar no seu caminho. E ao contrário do que pensam, não são perigosas. Formigas são perigosas, roubam seu alimento, te picam, contaminam sua comida. Aranhas não se importam com você, são plenamente capazes de dividir o mesmo espaço sem apresentarem perigo. O único problema na convivência seria falhar, em algum momento. Ficaria preso em uma rede impossível de escapar. E nunca existiram tantas aranhas, os seres mais irônicos e maravilhosos do universo. Vivem no mato, deserto, casas, papéis, escritórios, trânsito, banheiros, na alma. Queria ser aranha. Queria não precisar de nada além das minhas oito patas.

 

Natália Assarito

 



1:09:55 AM |




Corujas

Suspeito que tudo que foge do banal sempre me encantou. Uma pena confundirem com anormalidade tudo o que não é corriqueiro. Apesar de que eu faço questão de ser anormal, se normalidade for o que observo nas ruas diariamente. Sei que tudo que passa despercebido, pra maioria, é material extremamente especial pra mim. E certas vezes, constatar isso me vira de cabeça pra baixo. Porque eu conheço quem tem arte na alma. Passei toda a minha vida buscando isso e, pela primeira vez, não invejo mais quem é assim. É claro que me sinto do tamanho de uma formiguinha, mas não importa,  trocaria todas as tardes da semana, por uma ouvindo qualquer papo alheio. E fechar os olhos, carregados com o timbre de voz mais perfeito que eu já ouvi. Indivíduos artísticos devem ser assim, cada pedacinho do corpo tem mágica. Tem horas que eu queria desvendar esse mistério obscuro e gritar pra todo mundo que toda menina deveria ser uma praga de teimosa, ou destruir os seus acessórios, deixando-os mais bonitos depois de acabados, ou levar uma garrafinha de água na bolsa. E todas nós deveríamos analisar a simetria das coisas, antes de comprá-las. Porque, porra, é um saco ser igual as demais! Todas nós temos problemas com os namorados, não namorados, pessoas que queríamos que fossem nossos namorados, TPM, cabelos imbecis e todas as outras et ceteras femininas . Mas eu desejaria do fundo do coração que olhássemos pro mundo e disséssemos “eu gosto desse anel porque ele fica retinho”. É tão simples e tão absurdamente livre. Ninguém entende que quando não pensa, não deixa de fazer nada além do esperado, deixa de existir também. Um dia vou entender, porque o planeta é tão quadradinho. Um dia, talvez, entendam porque eu faço questão de viver em uma elipse. E eu já nem me importo mais. Eu só quero sentar em um banco sujo na praça e ouvir alguém falar com brilho no olhar. Eu só quero o absurdo.

 

Natália Assarito



8:08:53 PM |




A Menina e o Pássaro

Tem horas que a música, os livros, os amigos e a comida cansam. Em algumas situações sinto um desprezo em existir.  E o dia é pesado demais. Então, procurar algo que fuja do meu destino se torna uma obrigação. E você estava majestoso, com as asas brilhando, livre para voar nessa manhã cinzenta de segunda feira. Provavelmente cantando sobre o amor passarinho não correspondido, esperando encontrar alguém que te acompanhe e torne menos solitária a sua jornada. E eu estava te olhando, atrás do vidro. Pensando se algum dia serei livre pra sonhar e que há muito tempo o homem se tornou caçador dele próprio. Indagando sobre qual é a vantagem de se dizer rei do universo e ter os pés amarrados no chão.

 

Natália Assarito



10:28:51 PM |




Para uma menina com uma flor.

Vinícius de Moraes

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, 
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte 
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, 
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. 

    E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; 
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha 
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

 



11:50:25 PM |




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